Dueto

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Por Flô

Você
que é muito mais medo
espelho borrado
palavra que atesta os sem rumo
todas as identidades latentes
e atrevidas
lançam-se a vida
você que é muito mais medo
olhe-se
do outro lado do espelho
existe um bosque negro
neste infinito
o teu melhor reside
guardado,intocado
você que é muito mais medo
dance na chuva uma vez por ano
mergulhe a alma no mar vez em quando
você que é muito mais medo
abra a porta de casa
e deixe todos os ladrões entrarem
permita-se ser roubada
permita-se
em teus olhos a pintura molhada
ressucita a menina prendada de outrora
nenhum espelho é capaz de dizer
que o medo é o dono do mundo
que o medo,é um revolver sempre apontado p frente
que o medo é um acidente ligeiro
o medo menina,
teu espelho não quebra.

 

com um primeiro olhar

Silvério Bittencourt

com um primeiro olhar
sobre o início do
horário comercial:
nenhuma alma na rua
somente pele que se gruda na
carne que se gruda nos ossos

com um primeiro olhar
sobre o espelho:
nenhuma alma ainda
somente um metro e setenta e nove
de pele que se gruda na
carne que se gruda nos ossos
com impressões digitais pra
facilitar o trabalho da lei
carteira de identidade e CPF

talvez a alma pra eles chegue depois
das seis
pra mim um pouco mais tarde
talvez

Um Acorde Hortográfico

Thiago Pininga

Acordei Novo Ortográfico,
Em consequência,
Sem cartão de visita.

Sonhei sono hortográfico,
Sem consequências,
para Antônio Houaiss
(Tradutor de James Joyce)
E cia. das letras em cio.

Acordei Novo Ortográfico,
Em consequência
da polícia e do político
do pai dos burros
do livro.

citando uma coisa que todos sabem

Silvério Bittencourt

citando uma coisa que todos sabem:

terceira idade é época de extravasar
as energias contidas

observação: seja rápido

e mais

duas máximas que levam
a uma morte saudável:

primeira: a vingança é um prato
que se come frio
e a segunda:
o buraco é mais embaixo
embora o buraco de cima
seja talvez uma melhor opção

o status quo permite uma
fiel catalogação
e permite também um gráfico real
e tão reto quanto as linhas
tediosas da história humana

é toda uma obra que pode revelar
profissões
e um gosto constante e meio azedo

o ditador sangra

Wellington de Melo

Por Wellington de Melo

o ditador sangra
nu sobre a maca
talvez suja
talvez morna
como a agora já remota
manhã do golpe
ou o beijo na face do filho
ou o mar que lambe Havana
a despeito do câncer

o ditador sangra
e a lâmina
outra e outra vez
dança redor do tumor
que ignora
em sua solidão de tumor
em sua inocência de tumor
todo desejo de eternidade
todos os bustos e perdões esquecidos

e o sorriso rombudo
que algum dia deve ter tido o ditador
antes da maca, da lâmina
e dele mesmo
tumor
agora só uma boca entubada

o ditador sangra
enquanto sonha
com tardes castanhas
e meninos brincando com estátuas derrubadas

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