Dueto

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Por Flô

Você
que é muito mais medo
espelho borrado
palavra que atesta os sem rumo
todas as identidades latentes
e atrevidas
lançam-se a vida
você que é muito mais medo
olhe-se
do outro lado do espelho
existe um bosque negro
neste infinito
o teu melhor reside
guardado,intocado
você que é muito mais medo
dance na chuva uma vez por ano
mergulhe a alma no mar vez em quando
você que é muito mais medo
abra a porta de casa
e deixe todos os ladrões entrarem
permita-se ser roubada
permita-se
em teus olhos a pintura molhada
ressucita a menina prendada de outrora
nenhum espelho é capaz de dizer
que o medo é o dono do mundo
que o medo,é um revolver sempre apontado p frente
que o medo é um acidente ligeiro
o medo menina,
teu espelho não quebra.

 

Suzy (final)

Jean Soter

O namoro com Suzy durou o resto daquele mês de férias, uns dez dias mais ou menos, e só. Depois, tão jovem ainda, vim trabalhar na capital do estado, em um emprego que meu pai me arranjara através de um cliente da carpintaria. Trabalhei muito, fiz faculdade, evoluí, conheci moças de fino trato, e Suzy foi se reduzindo a uma lembrança agradável, escondida em um canto da memória, evocada de vez em quando em conversas de bar com amigos, em tom de injusta soberba e orgulho de rapaz mulherengo, que experimentava da forma mais vulgar e mesquinha os primeiros frutos da ascensão social.

O falecimento de minha avó afastou minha família da Vilinha, e sete anos se passaram sem que eu voltasse ao lugarejo.

Até que um dia, por ocasião das festas de fim de ano que eu passava na casa de meus pais, de férias do serviço, entrei com o carro na rodovia, e tomei o rumo da Vilinha. Acompanhava-me um velho amigo da cidade, que também trabalhava na capital. Estávamos bem-humorados, com o espírito relaxado, e tínhamos como única preocupação encontrar divertimento. Fazia calor, e os raios de sol invadiam o interior do carro, azulando a fumaça dos cigarros.

Da janela do carro, contemplávamos com prazer as variedades da paisagem rural, com olhos saudosos de caipiras exilados na cidade grande. Víamos roças de milho verdejantes, enveredávamos por canaviais sem fim, observávamos rebanhos preguiçosos de nelores, perdidos em vastas pastagens de braquiárias. Depois de uma hora de viagem, avistamos as primeiras casinhas do vilarejo.

Quando finalmente tomamos uma das ruas, fomos perseguidos por uma horda de cachorros caipiras, que tentavam loucamente morder os pneus do carro. Paramos em um boteco, em frente à praça da igreja, pedimos uma cerveja, e nos acomodamos em uma mesa na calçada. Estranhei o silêncio, a pouca gente na rua, a absoluta inércia do ambiente. A Vilinha continuava a mesma, mas eu tinha mudado muito.

Meu amigo deu uma golada na cerveja, acendeu um cigarro, e soltou o corpo nas costas da cadeira, com as mãos na nuca:

-  Ô lugar sossegado! Já pensou levar a vida aqui?

-  Acho que eu iria morrer de tanto beber.

Rimos.

- Você tem cada idéia. Que turismo esse nosso, hein? Não sei por que eu ando contigo. Eu sou um rapaz bom, meu problema são os caras com quem eu ando…

Fomos conversando descontraidamente, e bebemos mais cinco cervejas. Quando resolvemos ir embora, já tínhamos o demônio da embriaguez a nos aliciar os ouvidos.

- Vamos dar uma passada ali na casa da Suzy.

- Quem é essa Suzy?

- Um rolo que eu tive.

Quebramos por uma das esquinas. A noite tinha chegado, a iluminação dos postes era precária, e um vento anunciador de chuva forte fustigava as ruas desertas. A desolação do cenário contaminou nossas almas, e nosso humor tornou-se sombrio.

A casa onde morava Suzy estava abandonada. A julgar pela variedade e vigor da flora daninha que proliferava no quintal, com pés de arranha-gato atingindo a altura de dois metros, e pelas vidraças estraçalhadas, havia um bom tempo que a casa não abrigava uma alma viva. Senti um aperto no coração.

- Vamos dar uma passada na casa da Marina da Doze?

A casa da Marina tinha feito fama, por isso meu amigo sabia do que eu estava falando.

- Então vamos. Estamos no inferno mesmo, vamos abraçar o capeta de uma vez.

Estacionamos em frente ao bordel, em meio a outros carros. Fomos entrando, duas mulheres vieram ao nosso encontro.

- Querem uma mesa, gatinhos?

- Queremos.

- Vou pegar, a gente senta aqui na varanda.

O movimento na casa contrastava com o paradeiro das ruas. Muitas mesas estavam ocupadas, via-se garrafas de uísque importado, charutos, senhores com grossas pulseiras de ouro. Não faltavam mulheres.

Nos acomodamos com as duas mulheres em uma mesa, pedimos cerveja e copos.

- Como vocês se chamam?

- Eu me chamo Vanessa, e ela Tassiana. Vocês vão querer fazer programa?

- Vamos ver. Queremos conhecer suas amigas da casa. Será que a gente pode escolher?

-  Claro. Fiquem tranqüilos, vocês vão conhecer um monte de meninas. Vocês gostam de morena ou de loira?

Fizemos a conta do dinheiro de que iríamos precisar, vimos que tínhamos o suficiente e nos decidimos a fazer a extravagância.

- Hoje eu não vou ter dó do dinheiro não…

- Eu também não. Nem que eu tenha que passar o próximo mês à base do pão e água…

Vanessa cumpriu com o que tinha prometido. Cada mulher que passou por perto da mesa, nos foi apresentada. Uma delas eu reconheci, era Suzy.

***

- Você está muito diferente! Com o cabelo mais longo, mudou o penteado…

-  Você também, amor, quase que não te reconheço…

Suzy fez muito alarde da situação frente às colegas. Sentou-se a meu lado à mesa, pousou o braço sobre meu ombro. Quando percebeu que estava sendo correspondida, disse que naquela noite não queria saber de outro homem, e que era para as outras passarem longe de mim.

- Vanessa, aproveita que você tá aí perto do freezer, traz mais uma cerveja aqui pro meu namorado. E tire o olho, viu, que ele foi meu primeiro homem e hoje a gente vai matar a saudade…

***

Naquela noite infame, tive profanados todos os esconderijos de minha alma onde se refugiavam ainda alguns restos de inocência e ilusão.

A prostituta Suzy fumava muito. No quarto, a sós comigo, não mostrou cerimônias. O hábito da profissão tinha tornado suas carícias automáticas, diretas, eficientes.

Fitando o fundo de seus olhos, em vão procurei vestígios que me evocassem a lembrança de minha doce primeira namorada.

Terminada a tarefa, sem demora perguntou pelo pagamento, com dissimulada displicência. Entreguei-lhe o dinheiro, ela agradeceu, guardou de imediato na bolsa, revelou-se-me de repente a miséria de sua sina, cruamente.

Despedi-me, dei partida no carro, tomei a rodovia. Meu amigo dormia no banco ao lado, e uma chuva fina caía sobre a triste noite.

Nunca mais voltei à Vilinha.

FIM

Manuel Bandeira, precursor do Modernismo

André Cervinskis

Por André Cervinskis

“Não. O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a “inteligensia” nacional. É mais possível imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de guerra. E as modas que revestiram esses espírito foram diretamente importadas da Europa. Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil primeira fase, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato, a arquitetura e até o urbanismo (Duburgras) noecolonial aqui nascidos. Isso sim eram raízes engrossadas desde o início da guerra. Mas o espírito e as modas foram diretamente importados da Europa”

(Mário de Andrade, O Movimento Modernista  artigo, O Estado de São Paulo, 1942)

Pouco me deve o movimento (modernista); o que devo a ele é enorme.”

(Manuel Bandeira, Itinerário de Pasárgada)

Nesse ano, em que comemoramos os 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, não podemos deixar de refletir sobre o papel do Nordeste nesse movimento de renovação estética, que mudou profundamente as concepções de literatura e artes em geral, tanto por parte da classe artística, quanto da população em geral.

Na década de 1920, influenciado, também, pelas vanguardas européias, surge no Nordeste, e mais especificamente em Recife, o Modernismo. Souza Barros destaca o papel de pioneirismo que o Nordeste desempenhou na consolidação do Movimento Modernista, através da contribuição de muitos de seus artistas, como Vicente do Rêgo Monteiro, que, com sua exposição em São Paulo, já em 1917, lançaria – juntamente com Cícero Dias e Manuel Bandeira (com A Cinza das Horas, do mesmo ano) – obras artísticas que sinalizavam a necessidade de mudanças estéticas:

A liderança do movimento modernista no Recife, dentro da linha da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, não se fez através do pernambucano que esteve presente em sua realização: o poeta e pintor Vicente do Rêgo Monteiro. [...] As ligações do Recife, nessa época, com a agitação artística francesa, através dos irmãos Monteiro, Joaquim e Vicente (pela estada dos mesmos quase que permanentes na França) marcam, no entanto, uma forte influência no movimento de renovação da década, naquele grupo que não se filiou a São Paulo e uma textura absolutamente impregnada de modernismo não-futurista. Certas constantes ainda, na literatura, como, por exemplo, os contatos de pernambucanos com renovadores franceses na poesia (e podíamos citar Paul Eluard, amigo sucessivamente de vários pernambucanos: Manuel Bandeira, amizade começada na primeira década deste século (o XX), no Sanatório de Clavadel; Vicente Monteiro, de quem foi íntimo a ponto de fazer uma introdução a um de seus livros de poesia; Joaquim Monteiro e Cícero Dias, este último também um dos renovadores de nossa pintura e criador de um tratamento novo dentro de aspectos tradicionais e, de certa maneira, folclóricos).

(BARROS, 1985, p. 160)

Segundo esse autor, o intercâmbio cultural com a Europa deu-se por conta da posição geográfica e cultural privilegiada da capital pernambucana. Nessa perspectiva, seria equivocada a impressão apresentada pela bibliografia contemporânea sobre o modernismo quando afirma que esse movimento teria começado em São Paulo e se desencadeado ao restante do país, incluindo o Nordeste:

O movimento modernista do Nordeste localizou-se quase exclusivamente no Recife. Seria uma decorrência ainda da capital regional que guarda ainda hoje essa posição de centro de cultura e de irradiação na área. Era uma cidade com emulação, com um porto de região, com livrarias que se orgulhava de acompanhar o vient-de-paraitre de Paris e de outras capitais européias. Não recebia os livros e as revistas, as últimas informações por intermédio do Rio, mas diretamente, com mais independência talvez do que hoje, quando o comércio e a abertura de grandes firmas de representação no Rio e em São Paulo transformaram as velhas ilhas do arquipélago cultural, impondo contatos mais permanentes com o Sul do País.

(BARROS, 1985, p. 154-155 – grifos nossos)

Na esteira desse movimento, surgem duas correntes em Recife: a ligada ao Modernismo do Sul, mais especificamente ao Grupo Paulista, na figura de Joaquim Inojosa; e outra mais ligada à Tradição, de cunho mais autônomo em relação a esse grupo, representado por Gilberto Freyre, também chamado regionalismo, como pontua Neroaldo Pontes de Azevedo, em seu livro Modernismo e Regionalismo: os Anos 20 em Pernambuco:

Os “regionalistas”, encastelados no Diario de Pernambuco, acusando o governo federal de interferência indevida em Pernambuco, propugnavam pela defesa regional, a nível político, cultural, artístico. O objetivo básico do grupo que se arregimenta em torno do Centro Regionalista do Nordeste era, conforme as palavras do programa, “desenvolver o sentimento de unidade do Nordeste.” Tratava-se, em última instância, de promover o fortalecimento da região, superado, assim, o esquema frágil das diversas unidades estaduais, para servir de sustentação ao confronto com o Sul, especialmente porque se tinha clareza suficiente da decadência em que se encontrava a região. [...] Por outro lado, os que divulgavam o modernismo, tendo como quartel general o Jornal do Commercio, pertencentes aos irmãos Pessoa de Queiroz, ligados até por laços de família ao presidente Epitácio Pessoa, tinham como palavra de ordem imitar São Paulo, especialmente naquele primeiro grito de urgência na destruição do passado. [...] O fato é que tal mensagem compreendida como futurista, não era acompanhada de sugestões concretas que pudessem alimentar com um conteúdo novo a nova forma de arte preconizada. Essa tendência de propostas diretas deverá ter sido responsável, entre outras coisas, pela acolhida em geral polêmica , quando não zombeteira, que se deu aos primeiros anúncios do modernismo em Pernambuco e, a partir daí, no Nordeste em geral.

(AZEVEDO, 1984, p. 173-174)

Não obstante a ebulição cultural do Nordeste, prefigurando o Modernismo que estava por vir, as primeiras décadas do século XX, a literatura brasileira permanecia presa aos velhos modelos acadêmicos, parnasianos e simbolistas. Ainda que se reconhecesse a necessidade de renovação, muitos escritores e críticos se apegavam ao passado, não reconhecendo as vanguardas européias como legítimos modelos dessa renovação artístico-literária e não admitindo nem mesmo sua influência e adaptação às letras brasileiras. A Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado de Assis e alguns dos mais representativos escritores do nosso parnasianismo, como Olavo Bilac, era o baluarte dessa corrente de resistência conservadora em nossas letras.

Lembremos, porém, que esse conflito entre tradição e modernidade é uma característica da situação histórica e social do início do século XX. Atentando para a efervescência política dos anos vinte, poderíamos inferir que o Brasil atravessou uma fase de transformações profundas, tendentes a configurar um quadro econômico-estrutural mais complexo que o sistema agrário-exportador herdado do Império. Nesse contexto, permanece a política dos governadores, a serviços das oligarquias; permanece em suas linhas básicas a política financeira protecionista do café, gerando atritos com a emergente burguesia industrial; permanecem ainda, em alto grau de diluição, o Naturalismo e o Simbolismo do século anterior. Durante os anos vinte, esses óbices vão sendo mais vigorosamente atacados: o “tenentismo” é a clara expressão de um desejo de modificação do país, assim como a fundação do Partido Comunista e a formação, por Jackson de Figueiredo, de um grupamento pequeno-burguês católico e direitista. Trata-se, no fundo, do processo de plena implantação do capitalismo no país e do fluxo ascensional da burguesia, dois fatores que mexem com as demais camadas sociais e são espelhadas por tal agitação (LAFETÁ, 2000).

Nosso Modernismo literário inicia-se em resistência ao academicismo conservador, lusitano e dissolvente que ganhara ascendência na própria Academia, ainda que esta mal se fundara. Literariamente menos oco do que o Arcadismo dos Esquecidos, Renascidos e Felizes, o academicismo do século XX não possui sequer a apagada significação social. Apesar do caráter de bajulação escancarado, tiveram as famosas academias do Século XVIII, refletindo esporadicamente anseios locais em roupagens de barroca “literatice”, numa época em que foi mais cúpida a exploração colonial e mais cruenta a dominação da metrópole portuguesa.

Nesse sentido, a Semana de Arte Moderna de 1922, ao invés de marco inicial dessa revolução, foi, na verdade, o momento-chave da virada, uma mudança estético-cultural que já vinha se processando desde as primeiras décadas do século. Em 1912, o jovem escritor e jornalista Oswaldo de Andrade toma conhecimento, na Europa, das idéias do Futurismo, posteriormente divulgadas em São Paulo. Em Portugal, funda-se a revista Orpheu, assinalando o início da vanguarda modernista em Portugal, tendo à frente, dentre outros, o brasileiro Ronald de Carvalho. No ano seguinte, em 1916, a Revista do Brasil consolida essa nova visão crítica e nacionalista (TUFANO, 2003). Sobre a contextualização dessa época pré-modernista, nos revela Castro (1979):

1917 é uma no importante para o movimento de opinião pública brasileira. A continuidade da guerra em plena operação, provocando tragédias que não interessavam tão somente à Europa, mas todo o mundo; e revolução soviética, instaurando um novo regime que propunha uma nova dialética política com ressonâncias internacionais; a dramática atmosfera por que vivem então todas as nações e povos, finalmente integrados numa ilimitada e inquieta comunidade universal, são fatores de modificações do homem brasileiro, principalmente daquele paulista. São fatores que interessam profundamente á vida nacional, dando-lhe novos endereços tanto no setor econômico-social, como no cultural.

 (CASTRO, 1979, p. 100)

Esse conflito entre tradição e modernidade, porém, não foi uniforme em todos os escritores modernistas. Havia o grupo paulista, mais revolucionário e iconoclasta, defendendo abertamente a oposição ao tradicionalismo; e o do Rio de Janeiro, que, embora reconhecendo a necessidade de mudanças, considerava importante manter alguns valores advindos da tradição, inclusive na estética. O grupo de São Paulo, liderado por Oswald e depois por Mário de Andrade, operava paralelamente a este outro, num sentido de consciente ruptura com a realidade brasileira. Mais adiante, o autor esclarece tal diferença política entre os grupos, destacando o papel inovador de Bandeira:

Os jovens escritores do Rio de Janeiro recolhem a tradição simbolista e criam uma expressão moderna a partir dessa coerente seqüência histórica. Já em 1917, Manuel Bandeira, com A Cinza das Horas, propõe a renovação elaborada pela corrente dos herdeiros de Cruz e Sousa, poetas voltados diretamente à superação do espírito oitocentista e á conquista de uma poesia nova.(…). Com Adelino Magalhães e Manuel bandeira, o código lingüístico brasileiro se abre para uma perspectiva de revolução, a partir da logicidade da evolução do processo literário

(Op. cit., p. 98-99 – Grifo nosso)

Essa afirmação é constatada ao percebermos que a estética maior bandeiriana “sempre esteve marcada por uma postura de combate à rigidez da forma e um constante experimentalismo consciencioso das múltiplas possibilidades lingüísticas” (Op. cit., p. 30). Sobre o papel de Bandeira na inovação estética preconizada pelo Modernismo, destacadamente a adoção do verso livre, assim contextualiza Arrigucci:

Bandeira, poeta ponte na passagem da poesia brasileira para a modernidade, foi quem primeiro assimilou organicamente a inovação técnica à sua linguagem pessoal, buscando novos rumos mediante novos instrumentos. Em suas mãos, o verso livre se fez o meio exato de expressão e descoberta de uma poesia que era possível desentranhar do mais humilde cotidiano. Superando o artificialismo da poética parnasiana, presa a uma concepção da forma como fórmula versificatória, mecanicamente dissociada do conteúdo, como se a linguagem poética fosse uma espécie de adorno postiço superposto à seriedade elevada dos temas previamente escolhidos, Bandeira, ao contrário, tornou o verso um instrumento afinado pela tensão harmônica entre os extremos da expansão libertária e da concepção organizada. Pôs a prosa no verso, dando a ver a poesia que pudesse conter entranhada. Por isso não se reduz a fórmulas; nem mesmo à do emprego obrigatório do verso livre.

(ARRIGUCCI, 1990, p. 60)

A posição de Manuel Bandeira em face dos parnasianos e a sua aproximação do grupo de São Paulo, notadamente de Mário de Andrade, com quem troca correspondência de 1922 a 1944, não o faz, contudo, reivindicar para si o título de modernista. Havia o romantismo, no qual Bandeira buscava inspiração, especialmente em sua temática do local e da musicalidade. Assim, convivendo, desde a infância, em meio ao mundo da literatura, Manuel Bandeira desempenharia um papel atuante nos contextos literários de renovação de nossas letras, ora emprestando aos modernistas de São Paulo, em 1922, o texto que lhes faltava para a demarcação do novo em nossa poesia, “Os sapos”, escrito em 1918; ora elaborando, para os modernistas nordestinos, o poema “Evocação do Recife”, escrito em 1925 e publicado em Libertinagem (1930), como acentua Wilma Martins de Mendonça ao se debruçar sobre a relação de Bandeira com o Modernismo de São Paulo e o Modernismo do Nordeste (MENDONÇA, 2008). Sobre essa atuação poética de Bandeira no período inicial do Movimento Modernista do Nordeste, assim se referiria Gilberto Freyre, espécie de co-autor de Bandeira, como revela, em entrevista, a D’Andrea:

O poema de Manuel Bandeira – “Evocação do Recife” – é de forma modernista, valorizando, entretanto, valores regionais e tradicionais. Uma inspiração minha… Por inspiração minha, como Manuel Bandeira reconhecia. Ao mesmo tempo, nesse livro, você vê desenhos modernistas de Joaquim do Rego Monteiro. Estão lá! Isto confirma o que era a minha concepção paradoxal de juntar esses contrários: Regionalismo, Tradicionalismo, Modernismo.

(FREYRE apud  D’Andrea, 1992, p. 204)

Ao se voltar para a sua participação no movimento liderado por Gilberto Freyre, Manuel Bandeira apreciaria essa inserção, através de um olhar marcado pela positividade, ressaltando que, graças à sensibilidade pernambucana de Freyre, se reconduzira a Pernambuco, denominado, em seu texto, como província:

Lista [de amigos] a que devo juntar, depois de 1925, o nome de Gilberto Freyre, cuja sensibilidade tão pernambucana muito concorreu para me reconduzir ao amor da província e a quem devo ter podido escrever naquele mesmo ano a minha “Evocação do Recife”.

(BANDEIRA, 1997, p. 326 – grifos nossos)

Veja-se que Bandeira expressa a Freyre uma gratidão dupla: a de ter elaborado a Evocação e a de tê-lo reconduzido ao mundo da “pernambucanidade”. Seria essa, então, a primeira demonstração explícita do reconhecimento de Bandeira aos valores defendidos pelo Modernismo do Nordeste (regionalismo).        Assim, Bandeira participaria tanto das experiências modernistas do grupo paulista, quanto das elaborações estéticas do Modernismo nordestino. Isso nos deixa entrever que Bandeira se apercebe, desde o início, das similaridades entre as duas mais importantes vertentes do Modernismo brasileiro.

Dessa forma, Manuel Bandeira se anteciparia, criticamente, à perspectiva teórica que, longe de acentuar as diferenças entre as nossas principais modalidades modernistas, procura pontuar os traços de aproximação entre elas, como procede, hoje, Heloísa Toller Gomes, estudiosa do Modernismo do Nordeste:

Delinearam-se, naqueles anos, as duas principais vertentes do modernismo literário brasileiro: a vertente do Sul, com seu nacionalismo irreverente e sua escrita iconoclasta, geradora e herdeira da “Semana”; e o modernismo regionalista do Nordeste, mais carrancudo e introspectivo, desconfiado do humor desbragado da nova literatura paulista e menos explicitamente ousado em termos formais. [...] O sentido de brasilidade da produção literária nordestina, embora bem diferente daquele exibido pelos modernistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, era também ambicioso em suas propostas estéticas, indo além da manipulação do rico repertório imagístico e temático nacional. [...] Na verdade, complementavam-se as duas perspectivas, a do Sul e a do Nordeste, em relação a um Brasil que se encaminhando de maneira incerta para uma controvertida e avassaladora modernidade, necessariamente dramatizaria e confrontaria, na cena literária de então e das décadas subseqüentes, a sofisticação e a miséria das metrópoles aos grandes sertões e às decadentes casas-grandes, com sua “senzala dos tempos do cativeiro”.

(GOMES, 2003, p. 646)

Semelhante discrepância entre perspectivas ideológicas dos dois grupos – o Modernismo do Sul e o do Nordeste – deu-se graças a uma realidade bem palpável: ao contrário do que possa parecer à primeira leitura, não havia uma ligação permanente entre os modernistas do Sul e do Nordeste. Isso refletia a realidade de um país continental, com distâncias enormes entre as capitais das regiões e das regiões entre si. Lembremos que a viagem de Recife ao Rio só era possível ser feita de navio e demorava-se quase uma semana. Nesse sentido, Joaquim Cardozo dará o seguinte depoimento:

Nenhum de nós jamais tomou conhecimento do movimento modernista de São Paulo, que Mário de Andrade incumbiu Joaquim Inojosa de difundir ou implantar em Pernambuco. Apreciávamos o grande Mário, mas movimento por correspondência, ler o jornal ou revista (uma Verde, suponho) que se dizia modernista – nunca. O nosso impulso era outro, e o passado para nós contava. O velho barroco do Recife fazia parte de nossas preocupações, assim como as coisas típicas, a comida, os folguedos populares, o carnaval. Queríamos e ainda queremos o velho Recife com sua expressão própria, o seu caráter, os seus dois rios outrora pachorrentos a deslizar barrento aos longo das ruas. Éramos consumidores certos de abacaxis dos canoeiros que encostavam perto das velhas gameleiras, a enfeitar o cais ali atrás da Biblioteca.

(CARDOZO apud  SOUZA BARROS, 1984, p. 165 – grifo nosso)

Em carta de 03 de fevereiro de 1926, Bandeira comentará com Carlos Drummond de Andrade a simpatia com que encara a ação de Gilberto Freyre e de outros regionalistas, especialmente se comparados com os que se auto-denominavam “modernistas” do Recife:

Gilberto Freyre é um rapaz de 24 anos, creio. Informaram-me que já esteve quatro anos nos Estados Unidos. É inteligentíssimo. Não é modernista, mas gosta muito de nós. Está fazendo no Norte uma campanha em favor das boas tradições brasileiras. Parece que foi ele quem descobriu aquele desenhista meu xará e o Joaquim Cardozo que também é pintor. Esses três passadistas me parecem muitíssimo mais interessantes que os “modernistas” de lá, todos muito fraquinhos.

(BANDEIRA apud AZEVEDO, 1984, p. 137-138 – grifos nossos)

Em poema intitulado Casa Grande & Senzala, do livro Mafuá do Malungo, de 1948, Bandeira vai elogiar o Mestre de Apipucos como legítimo representante do regionalismo, exaltando a descoberta do Brasil crioulo que Casa Grande & Senzala proporcionou:

“Casa Grande & Senzala”/ Grande livro que fala/ Desta nossa leseira/ brasileira/ Mas com aquele forte/ Cheiro e sabor do Norte/ Dos engenhos de cana (Massangana!)/ Com fuxicos danados/ E chamegos safados/ De mulecas fulôs/ Com sinhôs!/ A mania ariana/ Do Oliveira Viana/ Leva aqui a sua lambada/ Bem puxada./ Se nos brasis abunda/ jenipapo na bunda/ Se somos todos uns/ Octoruns/ Que importa? / É lá desgraça?/ Essa história de raça/ Raças más, raças boas,/ Diz o Boas./ É coisa que passou/ Com o Franciú Gabinau./ Pois o mal do mestiço/ Não está nisso./ Está em causas sociais/ de higiene e outros que tais:/ assim pena, assim fala/ “Casa Grande & Senzala”./ Livro que à ciência alia/ a profunda poesia/ que o passado revoca/ E nos toca/ a alma de brasileiro,/ Que o portuga femeeiro/ Fez e o mau fado quis/ Infeliz.

(BANDEIRA, 1993, p. 308)

Esse apego ao tradicional, aos valores regionais, pregado pelo regionalismo e não obstante a sua importância para a Semana de 22, o eleva à condição de o “São João Batista do Modernismo” 1, como o denomina Mário de Andrade[1]. Dessa feita, a ligação entre Manuel Bandeira e os modernistas de São Paulo não se processaria sem dificuldades e restrições. Isso reconhece o próprio poeta ao justificar sua ausência, como também a de Ribeiro Couto 2 Esse primeiro encontro foi o princípio de uma amizade que dura até hoje e me tem sido fonte de grandes alegrias, grandes ensinamentos. De algumas grandes raivas também… (BANDEIRA, 1997, p. 321)], à homenagem que a primeira revista modernista Klaxon (1922), prestou a Graça Aranha, assim como aos eventos da Semana de Arte Moderna de São Paulo, conforme se lê na citação abaixo, um tanto longa, mas necessária à nossa compreensão, da visão de Bandeira, acerca do universo dos modernistas de São Paulo e de sua posição em face deles:

Em 1922, apareceu Klaxon, a primeira revista do movimento modernista, em cujo terceiro número saiu o meu “Bonheur lyrique”, enviado a pedido de Mário. Também não quisemos, Ribeiro Couto e eu, ir a São Paulo por ocasião da Semana de Arte Moderna. Nunca atacamos publicamente o soneto nem, de um modo geral, os versos metrificados e rimados. Pouco me deve o movimento; o que devo a ele é enorme. Não só por intermédio dele vim a tomar conhecimento da arte de vanguarda na Europa (da literatura e também das artes plásticas e da música), como me vi sempre estimulado pela aura de simpatia que me vinha do grupo paulista.

(BANDEIRA, 1997, p. 326)

A postura independente de Manuel Bandeira frente aos modernistas do Sul foi ressaltada em palestra realizada por Ângelo Monteiro, em um seminário que rememorou os 40 anos de falecimento do poeta, em 13 de outubro de 2008:

Bandeira não fez poesia a partir do receituário do Modernismo de 1922, pois desde antes de 1912, antecipando-se mais de dez anos à Semana de Arte Moderna, já praticava o verso livre. [...] Este aspecto de caráter de Bandeira ajuda a explicar sua instintiva descrença em escritores como Graça Aranha e o futurista italiano Marinetti. Deplorava a resplandecência italiana e recusava-se a aceitar, em face da evidência conflitante, que o Futurismo tivesse exercido qualquer influência real no Modernismo brasileiro.

(MONTEIRO, 2008 – grifo nosso)

Dessa maneira, aberto à inovação estética que representou o Modernismo do Sul, mas ligado às tradições do regionalismo, Manuel Bandeira assumirá uma perspectiva mais equilibrada e menos aguerrida, de centro, como se poderia dizer, transitando e contribuindo para a consolidação dessas duas correntes do Modernismo, conforme atestaria Souza Barros:

Naturalmente que tudo quanto se fez em Pernambuco foi em proporções muito menores e não houve uma manifestação aberta como no Sul,, o que somente se verificaria depois da Semana de São Paulo. A garantia dessa pernambucanidade ficou, porém, assegurada, sem bairrismos e com a compensação de termos contribuído, no Rio, para o Movimento, através de Manuel Bandeira (o poeta), que foi sem dúvida, um dos pontos altos da renovação, e no espírito de maior resistência nacionalista, fazendo, neste particular, aliança com Mário de Andrade, em São Paulo.

(BARROS, 1985, p. 154 – grifos nossos)

Demonstrando esse apego à região, Manuel Bandeira escreveria a crônica “Impressões de um cristão novo do regionalismo” (Crônicas de província do Brasil, 2006) e compara-se a Joaquim Nabuco, assumindo-se como “ex-regionalista” – uma vez que saiu muito cedo de sua região, indo tentar a vida com a família no sul do país, conforme lemos a seguir:

Esse ex-regionalista fora como ele. Escrevera sobre cozinha pernambucana, sobre os descendentes dos fidalgos vianeses que vieram com Duarte Coelho, sobre os negociantes portugueses que comiam nas calçadas da Rua Nova em porcelana azul de Macau, sobre as sinhás que as mucamas espiolhavam na modorra das sestas, tudo com abundantes citações de KJoster e Tollenare. Para acabar tomando leite condensado de Horlick… [...] A expectativa sarcástica do ex-Regionalista ficou lograda. O Regionalista só tinha encontrado motivos de prazer. É verdade que não contou par ao outro a sua impressão do famoso cheiro quer embriaga para a vida inteira quando  respirado na infância. Pareceu-lhe que pode ser sentido numa simples xícara de mel de engenho e dispensa a infância. O que não dispensa é o dom de poesia, como existiu em Nabuco.

(BANDEIRA, 2006, p. 191)

Dessa forma, saudoso do Recife de sua infância, tempo evocado pelo poeta em três poemas nos quais se refere à sua cidade (Evocação do Recife, de Libertinagem, 1930), e dois com o título Recife: um, de Estrela da Tarde, 1960; outro, também, de Libertinagem), bem como em crônica intitulada “Recife”, Bandeira, regressando de uma viagem a trabalho de sua terra natal, vai reclamar do ar moderno que tomou conta dela:

Há tempo que não te vejo!/ Não foi por querer, não pude,/ Nesse ponto a vida me foi madrasta,/ Recife.[...] Mas não houve dia em que não te sentisse dentro de mim:/ Nos ossos. Nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,/ Recife. /Não com és hoje,/ Mas como eras na minha infância, / Quando as crianças brincavam no meio da rua/ (Não havia ainda automóveis)  / e os adultos conversavam de cadeira nas calçadas./ (Continuavas província,/ Recife)./ Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas,/ sem Arraes, e com arroz,/ Muito arroz,/ De água e sal,/ Recife.

(BANDEIRA, 1993, p. 249 – grifos nossos)

Este mês que acabo de passar no Recife me repôs inteiramente no amor da minha cidade. Há dois anos atrás, quando a revi, depois de uma longa ausência, desconheci-a quase, tão mudada a encontrei. E sem discutir se essa mudança foi para melhor ou para pior, tive um choque, uma sensação desagradável, não sei que despeito ou mágoa. Queria encontrá-la como a deixei menino. Egoisticamente, queria a mesma cidade da minha infância. Por isso diante do novo Recife, das suas avenidas orgulhosamente modernas, sem nenhum sabor provinciano, não pude reprimir o mau humor que me causava o desaparecimento do outro Recife, o Recife velho, com a inesquecível Lingüeta, o corpo Santo, o Arco da conceição, os becos coloniais… Mesmo fora do bairro do Recife, quanta diferença! Quanta edificação nova em substituição às velhas casas de balcões esses balcões tão bonitos, tão pitorescos, com os seus cachorros retangulares fortes e simples como traves. (Um arquiteto inteligente aproveitaria esse detalhe tradicional bem característico do Recife). Os cais do Capibaribe, entre Boa Vista e Santo Antônio, sem os sobradões amarelos, encarnados, azuis, tão mais de acordo com a luz dos trópicos do que esta grisalha que os requintados importaram de climas frios.

(BANDEIRA, 2006, p. 109)

Essa atitude de independência de Bandeira frente às principais correntes modernistas do país (Nordeste e Sudeste), para alguns críticos, seria conseqüência de sua maturidade e do equilíbrio que existiria em sua poesia. Assim, em 1967, a partir da obra Poesia Completa e Prosa, Sérgio Buarque de Holanda trata da singularidade poética de Bandeira, que, conforme ele, advém da não-obediência a qualquer programa definido e não se prende a qualquer compromisso estético, ainda que atraído pelo movimento modernista. Publicando jê em 1917 A Cinza das Horas, em que já vislumbram versos livres e brancos, numa aproximação com a estética modernista que florescia no páis, Manuel Bandeira foi, como Cícero Dias ou Vicente do Rêgo Monteiro, mesmo longe de sua terra natal, precursor do Modernsimo, confirmando a vocação de Pernambuco como pioneiro em diversas manifestações culturais, inclusive a modernista, como esboçamos até então.

Assim sendo, contemplando a obra bandeiriana, podemos afirmar que, atento à nossa história e às manifestações culturais mais autênticas, Manuel Bandeira é, sem dúvida alguma, um dos nossos primeiros modernistas a transformar, em matéria poética, a afetividade e a cordialidade brasileira, no trato com o código lingüístico, cultural e religioso europeu, impostos, entre nós, pela violência etnocêntrica da colonização.

Nazaré da Mata (PE), 26 de março de 2012.

 REFERÊNCIAS

ARRIGUCCI JR., Davi. Humildade, Paixão e Morte: a Poesia de Manuel Bandeira. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

_______. O Cacto e as Ruínas. Rio de Janeiro: duas Cidades, 1997.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 34.ª  Ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1993

BANDEIRA, Manuel. Seleta em Prosa e Verso. Liv. José Olympio Editora/INL, RJ, 1971

________. Saudação ao Sr.Afonso Arinos de Mello Franco. Discurso. Revista da Academia Brasileira de Letras, v. 96, p. 109 a 124, julho a dezembro, 1958.

_________. Crônicas da província do Brasil. São Paulo: CosacNaif, 2006.

_________. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: 4.ª Ed., Nova Fronteira, 1997.

BARROS, Souza. A Década de 20 em Pernambuco. Uma interpretação. Recife; Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1985.

CASTRO, Sílvio Castro. Teoria e Política do Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Ed. Vozes, 1979.

CERVINSKIS, André. Manuel Bandeira, poeta até o fim. 2.ª Edição, Olinda: Livro Rápido, 2006.

_______. A Identidade do Brasil em Manuel Bandeira. Olinda: Livro Rápido, 2008.

_______. O Brasil de Manuel Bandeira. Recife: Ed. Universitária-UFPE, 2010.

D’ANDREA, Moema Selma. A Tradição (Re)descoberta: Gilberto Freyre e a Literatura Regionalista. Campinas, SP: Ed. da UNICAMP, 1992.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 3.ª edição,  Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997.

MONTEIRO, Ângelo. Manuel Bandeira e a Poética do Modernismo. Relato oral.Palestra proferida na UFPE, 13 out. 2008.

MORAES, Marcos Antônio (org.). Correspondência Mário de Andrade e Manuel Bandeira. São Paulo: EDUSP/IEB-USP, 2001.

  1. A expressão é de Mário de Andrade, apud Mário da Silva Brito, Poesia do Modernismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968; p. 59)
  2. Sobre a amizade com Ribeiro Couto, assim confessa Bandeira em seu itinerário de Pasárgada (1957): “Dessa geração paulista, uns dez anos mais moça que eu, já me era conhecido Ribeiro Couto, que mudara para o Rio e foi levado à minha casa por Afonso Lopes de Almeida. Couto, esse tornado em forma humana, escondeu o jogo na primeira vez em que nos vimos.[…

com um primeiro olhar

Silvério Bittencourt

com um primeiro olhar
sobre o início do
horário comercial:
nenhuma alma na rua
somente pele que se gruda na
carne que se gruda nos ossos

com um primeiro olhar
sobre o espelho:
nenhuma alma ainda
somente um metro e setenta e nove
de pele que se gruda na
carne que se gruda nos ossos
com impressões digitais pra
facilitar o trabalho da lei
carteira de identidade e CPF

talvez a alma pra eles chegue depois
das seis
pra mim um pouco mais tarde
talvez

Um Acorde Hortográfico

Thiago Pininga

Acordei Novo Ortográfico,
Em consequência,
Sem cartão de visita.

Sonhei sono hortográfico,
Sem consequências,
para Antônio Houaiss
(Tradutor de James Joyce)
E cia. das letras em cio.

Acordei Novo Ortográfico,
Em consequência
da polícia e do político
do pai dos burros
do livro.

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