Peitica
Sentava-me no chão, brincando embaixo da mesa, de onde só via os pés do meu pai. Ele estava sempre com um livro aberto nas mãos, olhando fixo para aqueles sinaizinhos estranhos. Não falava nada. Às vezes ficava sério, às vezes fazia ar de riso, às vezes parecia até contrariado. Que encantamento teria aquele objeto que ele mantinha diante dos olhos por horas, mal se movendo do lugar?
Distraído como estava, confundiu o bichinho debaixo da mesa com o cachorro da casa. Levando um chute que doeu mais por me desalojar daquele espaço tão cheio de promessas, sem me revelar, de quatro mesmo, pus o rabinho entre as pernas e fui para o outro cômodo, brincar aos pés de minha mãe.
Catava botões, colchetes, retalhos. Minha mãe, cantarolando algum bolero, de vez em quando parava para mudar o tecido de direção, cortar uma linha, fazer algum ajuste. Eu me embalava com o som do pedal, que ela acionava alternando calcanhar e ponta de pé, num ritmo hipnótico. Ali também percebia alguma magia: como era que ela pegava o pedaço de pano e com suas artes e aquela máquina esquisita transformava tudo em vestidos, camisas, calças, e no que mais se possam transformar pedaços de pano?
Não sabia brincar de boneca. Pegava-as, dava banho, trocava a roupa, penteava os cabelos de nylon, arrumava as mesinhas com as xícaras e os bules para o chá imaginário, sentava-as bem comportadinhas, e aí para mim se acabava a brincadeira. Achava ridículo minha irmã mais nova fazendo de conta que elas falavam, inventando histórias onde elas andavam pulando seguras pela cintura. Muito mais interessantes deviam ser aqueles brinquedos que entretinham meu pai por horas.
Enrolava e desenrolava a fita métrica, alisava as capas dos livros, abria, ficava olhando, em uma e no outro, aqueles sinaizinhos intrigantes. Livros com figuras não me diziam nada, achava tão ridículos quanto as bonecas falantes de minha irmã; tinham graça no máximo na primeira vez, depois eram as mesmas figuras, não se moviam, não falavam, não mudavam de lugar, nem seguras pela cintura.
Um dia, comecei a perguntar a minha mãe o que eram aqueles desenhosinhos pretos, cada um numa casinha, separados por tracinhos, na fita métrica vermelha. Ela me disse que eram números. E que cada um tinha um nome. A partir daí, todos os dias, sentava-me a seus pés e perguntava, repetidamente: que número é esse? E esse? E esse? E ela, às vezes com mais, às vezes com menos paciência, repetia os tais nomes.
Não sei depois de quantas tardes ou manhãs de repetições, uma mágica aconteceu: eu sabia os nomes dos números. Pelo menos dos primeiro cinco. Eu comia, dormia, só faltava tomar banho agarrada com a fita métrica, minha mãe tendo quase que arrancá-la da minha mão quando precisava dela para tirar as medidas das freguesas. Até que um dia chegou dizendo que eu, como sempre, a vencera pelo cansaço, alegou que a fita estava velha, que havia comprado uma nova, e me deu a antiga.
Foi uma felicidade de prêmio na loteria. Mas que durou pouco, a fita nova era muito mais bonita, verde, brilhante, e não tinha aqueles fiapinhos já se soltando. Comecei a esquecer a minha aqui e ali, até que foi parar na caixa de brinquedos. Voltei a brincar escondida embaixo da mesa.
Um dia me armei de coragem e perguntei a meu pai, atrás daqueles óculos de aros escuros e daquele bigode farto, o que eram aquelas coisinhas que ele ficava horas olhando nos livros. Você é muito pequena pra entender, um dia você vai para a escola e vai aprender.
Não me conformei. Corri para minha mãe e repeti a pergunta, do meu jeito. Ela me disse que eram letras. Quando perguntei o que eram letras, pensou um pouco e me disse que eram primas dos números. Aí eu não sosseguei mais. Era o tempo todo pedindo a ela que me ensinasse as letras, como me ensinara os números. Ela dizia que era mais complicado, depois ensinava, depois ensinava, e nunca arrumava tempo. Eu também não desistia, a cada cinco minutos ia perguntar se agora já podia me ensinar.
Uma hora ela me chamou de peitica, que eu não fazia a menor ideia do que fosse, mas pelo tom de voz dela achei que boa coisa não era e que talvez tivesse aborrecido ela de vez e ela nunca mais fosse me ensinar as letras. Ao invés disso, parou a costura, pegou uma folha de papel, fez um bocado de tracinhos, me deu um lápis e disse que eu fosse ligando os tracinhos.
Não era bem o que eu tinha pedido, achei que estava tentando se livrar de mim para que deixasse ela em paz e de fato voltou imediatamente para suas costuras. Demorei a conseguir ligar os tais tracinhos, mas surgiu no papel um desenho bem grande mas que parecia com um pequenininho que eu tinha visto num dos livros com figuras.
Pronto, terminei. E agora?
Agora, essa é a letra A.
E desenhava um abajur, um anel, um arco com uma flecha.
E tome mais tracinhos pra ligar, e mais letras a aparecer no papel, e mais desenhos, cada um para uma letra diferente. Com isso se foram mais dias e dias de distração para mim e um relativo sossego para ela.
Uma hora me cansei daquilo e perguntei para que serviam as tais das letras. Ela me disse que serviam para formar palavras. E para que serviam as tais palavras? Para dar nome às coisas e às pessoas. E a gente precisava de palavra pra dar nome a uma coisa? É claro que sim. A gente não precisou de nomes para aprender os números? Que eu imaginasse que as coisas e as pessoas não tivessem nomes, como eu ia fazer para pedir a ela um copo de água?
Aquilo me deixou pensativa. Acho que foi daquela hora em diante que nunca mais consegui pensar numa coisa sem pensar no nome da coisa. Mas o sossego não durou muito. Pedi a ela que me ensinasse uma palavra.
Os tracinhos formavam o G e o A. E ela me dizia que, juntos daquele jeito, formavam o som GA. Depois, outros tracinhos formavam o T e o O. E era TÓ que se falava. Depois, ela arrumou as quatro letras num papel só, me mandou juntar os tracinhos, e quando o desenho estava pronto ela cobriu com a mão a metade e me mandou dizer que som era aquele.
Respondi, meio decepcionada, GA. Aí ela tapou a outra metade e me mandou dizer o nome do som. Num tédio mortal, respondi: TÓ. Então ela descobriu o desenho inteiro e me mandou repetir primeiro o primeiro som, depois o segundo. Balbuciei: GAA—TÓÓ. E fiquei olhando pra ela com cara de e daí? Ela me mandou repetir, mas agora mais depressa. GA—TÓ. Agora mais depressa. E eu, já irritada, GATÓ, GATÓ, GATÓ.
Ela olhava para mim sorrindo, e eu achava que zombava de mim. Amassei o papel, joguei no chão, fui embora pisando duro. Sentei-me emburrada no batente da porta da cozinha e de lá só saí quando ela me pegou no colo e levou para a mesa para jantar, pois eu me recusava a me mover. Ao lado do meu prato, o papel com o desenho, desamassado.
Tive vontade de pegar e dessa vez rasgar em pedacinhos mas a presença do meu pai na cabeceira da mesa, olhando por cima dos óculos quando apontava para alguma coisa que a gente tinha que adivinhar o que era e passar para ele, me conteve. Comecei a tomar a sopa em silêncio. De vez em quando, olhava chateada para o papel. Os sons que minha mãe tentava me ensinar ficavam se repetindo em minha cabeça: GA – TÓ. GA – TÓ. GA – TÓ.
De repente, larguei a colher dentro do prato de sopa, que respingou sujando a toalha, peguei o papel na mão e pulava ao redor da mesa aos gritos GATO! GATO! GATO! GATO! Corri até minha mãe, dei um beijo nela e continuei gritando GATO! GATO! GATO!
Meu pai olhava, no começo com ar de susto, depois mais sisudo do que nunca. Eu conhecia aquele olhar. Baixei a cabeça, passei devagar e compenetrada pelo meu pai, ia para o quarto esperar a poeira baixar. Da porta da cozinha olhei para minha mãe, que também segurava um sorriso. Disparei pelo corredor, peguei um livro na estante do meu pai, o de capa vermelha com letras douradas de que eu gostava tanto, deitei na cama e fiquei alisando a capa, abria, passava as páginas, fechava, voltava a alisar. Acabei dormindo abraçada com ele.
Só muito tempo depois descobri o que era peitica. Ri muito, sozinha, o dicionário aberto no colo.







Laura Ramires
18 de janeiro de 2012 at 17:05 //
Lindo texto!! Escrita leve e cheio de símbolos.